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Domingo, 27 de Setembro de 2020, 08h:43

SUBSTÂNCIAS

Queimadas oferecem riscos à saúde que vão de câncer a depressão, diz médico

R7.COM

Foto: Mayke Toscano/Secom

O Brasil está perdendo sua biodiversidade para as queimadas. O Pantanal, maior bioma úmido do mundo, já teve 19% de sua área devastada. Até quarta-feira (24), a região registrou 6.048 focos de incêndio, recorde para um mês na série histórica iniciada em junho de 1998. A devastação, que teve origem na ação humana, mata a fauna, a flora e também ameaça a saúde física e mental das pessoas.

O pediatra e toxicologista Anthony Wong, diretor do Centro de Assistência Toxicológica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, explica que a fumaça está carregada de substâncias tóxicas, como o monóxido de carbono e o óxido de nitrogênio.

"Toda queimada solta substâncias irritantes. O maior problema é a fuligem, uma substância preta que, se a pessoa inalar, pode levar à inflamação dos pulmões e das vias aéreas. Quando o pulmão inflama, dificulta a passagem do ar", destaca.

De acordo com ele, todas as pessoas estão suscetíveis às complicações pela inalação de poluentes que vêm das queimadas. No entanto, crianças e idosos estão mais suscetíveis à insuficiência respiratória.

Pessoas que já tem doenças respiratórias e pulmonares também estão entre os mais vulneráveis. O pneumologista Elie Fiss, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, destaca que a inflamação das vias aéreas pode desencadear crises em quem sofre de asma, bronquite, rinite e enfisema pulmonar.

"Picos de poluição aumentam em 20% o número de pessoas que procuram o pronto atendimento", afirma.

As consequências podem ser ainda mais graves a longo prazo. Um estudo publicado em 2017 na revista científica Nature mostrou que a inalação de partículas presentes na fumaça de queimadas causa danos ao DNA, estresse oxidativo e morte das células dos pulmões.

"No entanto, se as células não forem capazes de lidar com o dano ao DNA e não houver a morte celular [das células intoxicadas], pode ocorrer mutações, levando ao desenvolvimento do câncer de pulmão", aponta a pesquisa.

Fiss acrescenta ainda que estudos mostram a relação entre poluição e o aumento de doenças cardíacas, como infarto e AVC (Acidente Vascular Cerebral).

Além disso, Wong destaca que o coração depende do pulmão. "Quando o pulmão inflama, afeta toda a circulação, ocorre uma diminuição da oxigenação sanguínea e hipertenção da artéria pulmonar", descreve.

Ansiedade e transtornos depressivos são comuns

Como se não bastasse, a tragédia ambiental também afeta a saúde mental da população pantaneira. Alberto Mesaque, professor de psicologia da UFMS (Universidade Federal do Mato Grosso do Sul) ressalta que existe uma ligação entre as pessoas e o território onde elas vivem, que está diretamente relacionado com a identidade de cada um.

"Além de ser sagrado, é um lugar de subsistência, então, junto com as queimadas surgem dúvidas: 'será que não vou ter como me sustentar?' Mas também tem a questão de ver o território onde estão minhas raízes sendo destruído", pondera.

"Sempre há fogo no Pantanal, mas esse ano foi bastante devastador, então isso é vivenciado pela população como uma catástrofe", completa.

De janeiro a agosto deste ano, foram registrados 10.153 focos de incêndio no Pantanal, essa quantidade equivale a tudo o que queimou no bioma nos seis anos anteriores, de 2014 a 2019.

Essa destruição gera, ao mesmo tempo, sentimentos de impotência e de descontrole, que podem desencadear ou piorar transtornos psicológicos. "É muito comum que as pessoas tenham ansiedade, transtorno depressivo e também que esse quadro se agrave", afirma Mesaque.

O professor enfatiza que a preservação da saúde mental é de responsabilidade coletiva, e não algo que vem do interior do indivíduo para o mundo externo, por isso, não é possível que as pessoas sozinhas se mantenham emocionalmente saudáveis.

"Quando a gente fala de preservação do meio ambiente também estamos falando de prevenção da saúde mental. Defender o Pantanal é defender a saúde mental da população pantaneira", alerta.


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