Cuiabá, 06 de Abril de 2020

SAÚDE
Quarta-feira, 12 de Fevereiro de 2020, 11h:06

SAÚDE PÚBLICA

Alerta: casos de suicídio aumentam mais de 100% em Cuiabá  

Escuta qualificada, oferta de tratamento e até mesmo barreiras em locais críticos são usadas como medidas de contenção  

Aline Almeida / Revista Única

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Em um ano, os casos de suicídios aumentaram em 126% em Cuiabá. Dados da Secretaria de Estado de Segurança Pública (Sesp) revelam que, em 2018, a Capital registrou 19 ocorrências desta natureza. Em 2019, os números saltaram para 43. Em todo o Estado, o ano de 2018 contabilizou 192 suicídios, já em 2019, foram 230. Para a Associação Brasileira de Psiquiatria, o suicídio pode ser definido como um ato deliberado executado pelo próprio indivíduo, cuja intenção seja a morte, de forma consciente e intencional, mesmo que ambivalente, usando um meio que ele acredita ser letal. O suicídio ou tentativa podem acarretar ao indivíduo, desde lesões graves e incapacitantes, até a sua morte. Entre as causas de suicídio, em primeiro lugar está a depressão, seguida do transtorno bipolar e abuso de substâncias. Apesar de estudo da Organização Mundial de Saúde (OMS) apontar que as doenças mentais estão presentes em mais de 90% dos casos de suicídio, a busca por ajuda ainda é cercada de tabus. A Associação Brasileira de Psiquiatria confirma que 60% das pessoas que se suicidaram, nunca consultaram um profissional de saúde mental. Psiquiatra Renée Elizabeth de Figueiredo Freire afirma que ainda há uma grande barreira entre cuidar da saúde mental da mesma forma que se cuida da saúde do corpo. Segundo Renée, o suicida sempre foi visto como uma pessoa “fraca”, que não conseguia dar a volta por cima. “Por trás da pessoa que está querendo se matar, existe muito sofrimento, muita dor e a gente pode ajudar”, garante. O assunto, segundo a psiquiatra, sempre foi tratado como tabu, seja por questões culturais, religiosas ou outras. “Há um preconceito muito grande em se procurar um psiquiatra, por exemplo. A sociedade entende que psiquiatra é médico de louco. Já melhorou muito, mas ainda existe este preconceito”, diz. Renée Elizabeth frisa que, em todo contexto, há fatores de risco a serem observados. O primeiro é a tentativa prévia de suicídio. A psiquiatra destaca que, quem já tentou uma vez, aumenta em cinco a seis vezes a chance de tentar novamente. Também chama a atenção o fato de que a idade média das pessoas que cometem suicídio está cada vez menor. Os jovens entre 15 a 30 anos estão se matando mais. “Estima-se que pelo menos metade daqueles que se suicidaram já tentaram previamente. Outro fator de risco é que os homens se suicidam três vezes mais que as mulheres, mas as mulheres tentam mais vezes que os homens, devido à diferença de métodos”, dizem. Um dos grandes gargalos na luta para evitar os casos de suicídio, segundo a psiquiatra Renée, é a falta de uma rede estruturada. A especialista ressalta que a saúde em Mato Grosso e no Brasil é muito pobre e a população não tem uma estrutura perto de onde moram para tratamento adequado. Muitos sequer sabem onde procurar ajuda em caso de necessidade. “Às vezes, o suicídio vem de um momento de impulsividade. É preciso que seja feita alguma coisa para interferir e conhecer o que leva aquela pessoa a querer morrer. Por isso precisamos de uma rede estruturada”, salienta.  

Outros dados – Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública confirma que, no país, foram registrados 11.314 casos de suicídio em 2018. Comparado com ano de 2017, quando foram 10.816 casos, houve um crescimento de 4,2%. O Estado de Mato Grosso registrou um crescimento entre os dois anos de quase o dobro da média nacional. Em 2017 foram 187 mortes por suicídio, passando para 207 em 2018, aumento de 7,6%.  

“Temos que romper com o pensamento de que a pessoa não sai da situação porque não quer. Estamos falando de uma doença. Não podemos minimizar o sofrimento do outro, devemos fazer a escuta sem julgamentos”, avalia a voluntária do CVV, Dayane Nascimento.    

Ações são necessárias no combate ao suicídio   Um dos casos que ganhou repercussão neste ano foi o de um homem que tentou tirar a própria vida no Portão do Inferno, em Chapada dos Guimarães (a 65 km de Cuiabá). O caso aconteceu no dia 18 de janeiro e a ação foi filmada por um motorista. A vítima chega ao local em um carro, atravessa o veículo no meio da pista e segue em direção ao precipício. Ele chega a colocar uma das pernas para fora da mureta do Portão do Inferno, mas é puxado no último segundo por um motociclista. Definido nas redes sociais como “um anjo enviado por Deus”, o motociclista foi identificado como Thulio Prates, um empresário de 25 anos. Thulio teve reação imediata quando percebeu se tratar de uma tentativa de suicídio. Ele desceu da moto que pilotava e agarrou o homem, trazendo-o de volta para a calçada, salvando sua vida. A psiquiatra Renée Elizabeth diz que é muito comum que as pessoas não tenham reações numa tentativa de suicídio. Tanto que muitos apenas filmam e até zombam da situação, tratando como frescura. “Por isso, em atitudes como esta do jovem que salvou, começa a ser enaltecida a figura de um herói. E de certa forma ele é. Ele teve aquela reação imediata de ajudar e é isso que precisamos”, confirma. Por outro lado, a psiquiatra ressalta a necessidade de ações mais concretas por parte do poder público. Para ela, lugares “chamativos” para suicídio devem ser repensados, tanto que a Associação Mato-grossense de Psiquiatria está organizando um movimento no sentido de apresentar ações pela redução de casos de suicídios. Além de campanhas e palestras, apontar a necessidade de redobrar a atenção a estes lugares está no rol de ações. A psiquiatra cita o caso do Portão do Inferno e também de trincheiras, que são locais de fácil acesso, utilizados por suicidas. Renée destaca a necessidade de criar barreiras e dificultar o acesso a estes lugares, dando maior proteção. “Os suicidas potenciais têm estes lugares como meta. Tem que ter segurança, afastar essa facilidade que se tem. Os gestores precisam fazer este estudo e proporcionar intervenções nestes locais”, ressalta.  

Escuta qualificada é ferramenta de prevenção   Suicídios podem, sim, ser prevenidos. E por meio de uma ferramenta muito simples e prática, segundo o chefe da unidade psicossocial do Hospital Universitário Júlio Müller (HUJM), Hugo Gedeon Barros dos Santos. A ferramenta é a escuta qualificada. Gedeon diz que ela ocorre quando a pessoa se dispõe a ouvir o outro. Essa escuta é qualificada, segundo ele, porque é isenta de julgamento, de denotações morais. É manter um comportamento de empatia com a outra pessoa, entender que ela sofre e ainda que possa parecer banal, é o sofrimento do outro e ele precisa ser auxiliado. “Já ouvi muitas vezes de pessoas com ideação suicida que, na verdade, elas não querem morrer, mas se livrar da dor. Poderíamos começar a evitar muitos casos se prestássemos atenção nas pessoas, nas mudanças de comportamento e sobretudo nos colocar à disposição na busca por ajuda. Todos têm condição de ajudar”. Hugo afirma que o comportamento suicida, de modo geral, a ideação e o suicídio, são multifatoriais. Ele destaca que são muitos os gatilhos que podem provocar o surgimento de uma ideação suicida, tentativa e suicídio consumado. Tem a questão da doença, a depressão, como patologia mais associada ao comportamento suicida. Há também questões financeiras, vazio existencial, solidão. Gedeon diz que o suicídio hoje é um problema de saúde pública. E um alerta maior é que estão se tornando cada vez mais concretos os casos de suicídio de pessoas entre 15 e 29 anos. O enfermeiro tem como tese de mestrado um estudo da presença da ideação suicida entre jovens universitários. “Espera-se que esta seja uma faixa etária em que as pessoas estão cheias de planos, de vontade de viver, enfim, toda a questão de se manter ativo. É assustadora a abordagem quando se fala com público mais jovem, que tem vontade de se matar”, diz. Quanto ao cenário do suicídio, o enfermeiro diz que são dois perfis clássicos: os homens se matam mais e as mulheres tentam mais. Hugo ressalta que os idosos ainda se matam mais, mas o público jovem vem aumentando de modo assustador. O suicídio não tende a fazer distinção de classes econômicas, mas estudos mostram que a população mais carente se mata mais. Hugo afirma que o tabu do suicídio tem muitas fases. Uma delas é a religião, os dogmas, a condenação por diversas frentes religiosas em relação ao suicídio, que traz a ideia de que a vida é dom de Deus e não teríamos direito de pôr fim a ela. “Há também a questão da fragilidade familiar. Tem famílias que tentam omitir o evento, porque denota que alguém dentro da casa estava fragilizado, adoecido e a família não deu o suporte necessário. Também tem o fato de que a imprensa, muitas vezes, aborda de modo insensível e isso cria um olhar negativo sobre o evento no sentido de condenação”, diz. O chefe de atenção psicossocial do HUJM diz que Mato Grosso tem uma lacuna nas políticas públicas em relação ao comportamento suicida. A começar por uma rede falha para atender os casos de pessoas que pensam em se matar, passando pelos casos de pessoas que já tentaram, até o tratamento dos sobreviventes, que são aquelas pessoas “que ficam”: famílias, amigos. “Temos poucas instituições de saúde voltadas para o mental, poucos profissionais de saúde. Não são todos os profissionais que têm a habilidade de assistir pessoas adoecidas. Nos casos de tentativas, as pessoas são levadas para pronto-socorro, UPA, tratando apenas a sequela do ato, não o contexto”, diz. Voluntária do Centro de Valorização da Vida (CVV), Dayane Nascimento comemora o fato de que o suicídio começa a ser discutido pela sociedade. Por muito tempo, até mesmo a imprensa evitava falar sobre o tema. Hoje, o assunto já é abordado junto às famílias, o que contribui para que as pessoas saiam, principalmente, do isolamento. “A abordagem do tema permite o incentivo às políticas públicas, as ações nas escolas e até mesmo a imprensa trata de outra forma”, diz. Dayane explica que há muitos fatores que podem aumentar a chance de suicídio. Os transtornos mentais, o uso de álcool e drogas e o isolamento social são fatores de risco. Por outro lado, os fatores de proteção estão no amparo da família, interação social e tratamento. “Às vezes existem sinais a ser observados. Se a pessoa muda de repente de comportamento, se deixa de fazer o que gostava, são situações para ficarmos alertas”, destaca. A voluntária frisa que as pessoas que necessitarem de ajuda ou mesmo quiserem apenas conversar, os canais do CVV estão disponíveis 24 horas. O Centro de Valorização da Vida tem mais de 60 anos no Brasil e oferece apoio emocional e escuta responsável e sigilosa. A ligação é gratuita pelo número 188. Há ainda o canal de chat e email que podem ser acessados pela página www.cvv.org.br. “A pessoa pode desabafar, conversar o tempo que for necessário. Vai ter com quem contar”, diz Dayane. A voluntária do CVV ressalta ainda que a sociedade precisa entender que o tema não pode ser enfrentado como simples “frescura”. Dayane afirma que muitos casos de tentativas ou suicídios estão ligados principalmente à depressão. “Temos que romper com o pensamento de que a pessoa não sai da situação porque não quer. Estamos falando de uma doença. Não podemos minimizar o sofrimento do outro, devemos fazer a escuta sem julgamentos”, avalia.  

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 “Já ouvi muitas vezes de pessoas com ideação suicida que, na verdade, elas não querem morrer, mas se livrar da dor. Poderíamos começar a evitar muitos casos se prestássemos atenção nas pessoas, nas mudanças de comportamento e, sobretudo, nos colocar à disposição na busca por ajuda. Todos têm condição de ajudar”, diz o enfermeiro Hugo Gedeon.

Sofrimento imensurável Falar da perda para o suicídio, há sete anos, do filho mais novo, ainda é uma sequela para V.C.S. (os nomes não serão divulgados a pedido das famílias). À época, o jovem, que tinha 16 anos, parecia cheio de planos, segundo a mãe, e chegar na residência e ver o menino morto foi a cena mais dolorida. Hoje, V.C. ainda luta para superar o trauma, mas a cena nunca será apagada da memória. “Eu morri aquele dia e morro todos os dias. A primeira coisa que vem à cabeça é ‘o que fiz que não consegui evitar aquilo?’. Meu filho estava sofrendo e não percebi. A gente se culpa pelo resto da vida”, diz. A mãe revela que o estudante era cheio de vida e tinha muitos amigos e, por isso, não percebia o pedido camuflado de ajuda. O jovem tinha o sonho de ser médico e estava fazendo cursinho pré-vestibular. Mas o destino foi rompido e ele “quis dar um fim ao sofrimento”. A carta de despedida ainda é guardada pela mãe. O adeus descrito por ela como uma ferida sem cura. “Eu perdi o meu menino e nada vai trazer ele de volta. Essa é uma dor que nenhuma mãe deveria passar”, lamenta. Desde 2013, D.B., 30 anos, trata a depressão. A crise mais severa veio no ano passado. Formada em Ciências Contábeis e iniciando uma faculdade de Direito, a jovem trabalhava em agência bancária e desistiu de tudo. Ela afirma que a sobrecarga foi um dos fatores que contribuiu com o quadro, inclusive numa tentativa de suicídio. “Eu pilotava moto e por muitas vezes tentei me matar. Avançava sinal, pilotava sem qualquer cuidado. A minha intenção era dar cabo à minha vida”, diz. D.B. conta que ficava sem comer, sem dormir, abandonou estudo, trabalho e se afastou dos amigos. A vontade era ficar trancada no quarto. Nem tomar banho conseguia. O tratamento só iniciou após a última tentativa de suicídio, quando ingeriu uma quantidade considerável de medicamentos. Todos os passos são acompanhados rigorosamente pela mãe. “Nunca pensei que ia passar por isso. Só busquei tratamento porque minha mãe insistiu muito. No começo eu tinha muita vergonha, mas com o tratamento, as coisas começaram a mudar”, conta. A esperança de D.B. é pela recuperação e retomada dos estudos. Os passos para uma nova vida começam a ser dados lentamente, com todo apoio necessário. “O mais difícil foi perceber que precisava, sim, de ajuda. Tudo que eu quero é uma nova vida, sair do sofrimento e agradeço à minha mãe por não desistir de mim. Voltei a sonhar, o que não fazia mais”, confirma.  

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 “Os suicidas potenciais têm lugares como o Portão do Inferno e trincheiras como meta. Tem que ter segurança, afastar esta facilidade que se tem. Os gestores precisam fazer este estudo e proporcionar intervenções nestes locais”, ressalta a psiquiatra Renée Elizabeth.  

Principais fatores de risco para o suicídio   • Tentativa prévia de suicídio: Pacientes que tentaram suicídio previamente têm de cinco a seis vezes mais chances de tentar novamente. Estima-se que 50% daqueles que se suicidaram já haviam tentado antes. • Doença mental: Quase todos os suicidas tinham uma doença mental, muitas vezes não diagnosticada, frequentemente não tratada ou não tratada de forma adequada. •Desesperança, desespero, desamparo e impulsividade: Sentimentos de desesperança, desamparo e desespero são fortemente associados ao suicídio. É preciso estar atento, pois a desesperança pode persistir mesmo após a remissão de outros sintomas depressivos. Impulsividade, principalmente entre jovens e adolescentes, figura como importante fator de risco.

• Idade: O suicídio em jovens aumentou em todo o mundo nas últimas décadas e também no Brasil, representando a terceira principal causa de morte nessa faixa etária no país.  O suicídio também é elevado entre os idosos, devido a fatores como solidão; existência de enfermidades degenerativas e outras.

• Gênero: Os óbitos por suicídio são em torno de três vezes maiores entre os homens do que entre mulheres. Inversamente, as tentativas de suicídio são, em média, três vezes mais frequentes entre as mulheres.

• Doenças clínicas não psiquiátricas: Doenças clínicas não psiquiátricas foram associadas ao suicídio de maneira independente de outros dois fatores de risco bem estabelecidos, como a depressão e o abuso de substâncias. As taxas de suicídio são maiores em pacientes com câncer; HIV; doenças neurológicas e doenças reumatológicas.

• Eventos adversos na infância e na adolescência: Maus tratos, abuso físico e sexual, pais divorciados, transtorno psiquiátrico familiar, entre outros fatores, podem aumentar o risco de suicídio. Um fator de risco adicional de adolescentes é o suicídio de figuras proeminentes ou de indivíduo que o adolescente conheça pessoalmente. Existe, também, o fenômeno dos suicidas em grupo ou comunidades semelhantes que emitem o estilo de vida.

• História familiar e genética: O risco de suicídio aumenta entre aqueles com história familiar de suicídio ou de tentativa de suicídio. Estudos de genética epidemiológica mostram que há componentes genéticos, assim como ambientais envolvidos.

• Fatores sociais: O sociólogo Emile Durkheim assinalou, no século XIX, um conceito de laço social que ainda hoje nos é muito útil. Quanto maiores os laços sociais em uma determinada comunidade, menores seriam as taxas de mortalidade por suicídio. Este conceito sociológico pode ser transposto para o nível individual: quanto menos laços sociais tem um indivíduo, maior o risco de suicídio. Desempregados com problemas financeiros ou trabalhadores não qualificados têm maior risco de suicídio: a taxa referente a mortes deste tipo aumenta em períodos de recessão econômica, principalmente nos três primeiros meses da mudança de situação financeira ou de desemprego.  

Telefones úteis à população SEAC – Setor de Atendimento à Crise: (65) 3661-1990 Unidade 3 do CIAPS Adauto Botelho: (65) 3661-4381 Emergência Samu – 192; Centro de Valorização da Vida – CVV 188 (ligação gratuita)


1 COMENTÁRIO:







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Fabiana  05-03-2020 07:53:26
Deixem nos morrer em paz vão cuidar de quem quer viver tem suicídio por causa da idade por causa de doenças então como vcs resolvem isso AFF

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