Cuiabá, 24 de Janeiro de 2021

GERAL
Sábado, 05 de Dezembro de 2020, 16h:32

CONHEÇA MIKA JEAN PAUL

Haitiana vende pasta de amendoim para trazer filhas: "Meu coração arde de saudade"

Elloise Guedes
Única News

(Foto: Elloise Guedes/Única News)

A palavra francesa 'Famille', que em português significa 'família', é uma palavra que ainda dói ao ser mencionada pela haitiana Michaelle Jean Paul, de 31 anos, que há 4 anos chegou em Cuiabá na tentativa de uma vida melhor. Michaelle sempre quis trazer as filhas Berly e Naika para morar com ela no Brasil e, assim, sua família voltar a ser unida como era antes.

Em entrevista exclusiva para o site Única News, “Mika”, como gosta de ser chamada, contou sua história e pediu ajuda para vender seus produtos e juntar dinheiro para trazer as meninas. “Não aguento mais de tanta falta que sinto, meu coração arde de saudades”, disse a haitiana.

Mika veio ao Brasil, após não conseguir mais emprego em seu país. O Haiti foi destruído por um terremoto em 2010. Desde então, muitos haitianos procuraram outros países para sair da pobreza extrema, que atingia e ainda atinge os lares de muitos que lá vivem.

Como tinha amigos em Cuiabá, Mika decidiu tentar uma nova vida na capital mato-grossense. Ela deixou marido, mãe, pai, irmãos e as filhas para tentar uma renda e mandar dinheiro para casa. Desde que chegou, Mika nunca ficou parada. De início, conseguiu emprego como doméstica na casa de uma família, mas o emprego durou apenas 2 anos. Ela não conseguiu garantir seus direitos e, ao pegar o acerto, tinha apenas o salário do mês trabalhado.

"Ela descontava todo mês dinheiro da minha conta e quando fui ver o que tinha de acerto, estava sem nada na minha conta. Como eu estava precisando muito, aceitei o dinheiro que minha ex-patroa me deu e não quis mais saber, não levei o caso pra frente. Acho que seria muito problema e eu não entendo muito para resolver esses problemas", disse Mika.

(Foto: Elloise Guedes/Única News)

Mika

Mika fabricando as pastas de amendoim

Hoje em dia, Mika mora em uma quitinete junto com o marido, que veio 3 anos depois de ela chegar. A casa fica no bairro Terra Nova, em Cuiabá. Atualmente, ela trabalha em uma lanchonete, que lhe paga R$ 60 por noite de trabalho. O marido sai todos os dias na tentativa de uma vaga de emprego, mas nunca conseguiu em meio à pandemia da covid-19.

Há pouco tempo, o esposo de Mika teve a ideia de fazer pastas de amendoim para ajudar na renda e juntar dinheiro para trazer as filhas ao Brasil. O marido a ajuda no preparo da receita, moendo o amendoim torrado. Depois de moído, o amendoim é amassado e misturado com açúcar, onde vira a pasta, que pode ser consumida com vários acompanhamentos. O valor de cada pode de pasta de amendoim é R$ 20.

Segundo Mika, ela aprendeu a receita no Haiti, quando ainda era adolescente. "Eu fazia na minha casa quando era mais nova, junto com a minha mãe. Quando as coisas começaram a apertar, o ‘marido’ teve a ideia de fazer para conseguir um dinheiro e trazer minhas filhas, pois não aguento mais de saudades", disse Mika, emocionada.

Por enquanto, Mika tem poucos clientes e faz as pastas mais por encomenda. Ela vende na pracinha, próximo ao local onde trabalha, e lá ela conseguiu alguns clientes que pedem toda semana.

Mika tem que mandar dinheiro todo mês para o Haiti, pois suas filhas dependem muito disso para conseguir estudar, já que no país não existe escola pública. "Todo mês eu mando dinheiro para minhas filhas e isso pesa muito. Às vezes não tenho nada pra comer aqui, mas mesmo assim não deixo de mandar dinheiro para elas. As coisas estão muito difíceis para mim, pois tenho muita saudade e não consigo um emprego melhor para ter dinheiro".

Michaelle e seu marido sentem muitas saudades de suas filhas. Eles pedem para que as pessoas comprem deles para ajudar nos custos da viagem. Uma passagem do Haiti até Cuiabá custa em cerca de R$ 7 mil, só para uma das crianças, e no momento eles não têm condições.

"Eu não peço dinheiro para ninguém, peço apenas que comprem minha pasta de amendoim, que é muito saborosa. Peço também uma oportunidade de emprego para mim e meu esposo, que há muito tempo vem tentando uma vaga. O meu coração dói de saudades das minhas filhas, só queria que elas crescessem perto de mim", ressaltou Mika.

Mika ressalta que, mesmo com tantas dificuldades, nunca perdeu a fé e que sempre fala com Deus para trazer suas filhas para perto. "Eu tenho muita fé, sei que Deus nunca abandonou. Por isso não perco a alegria e todos me veem sempre alegre, pois sempre peço forças a Deus. Às vezes, por fora estou alegre, mas por dentro estou destruída", finalizou.

Como ajudar

Para comprar as pastas de amendoim da Mika, basta encontrá-la na Praça de Alimentação do bairro Terra Nova, próximo ao Pantanal Shopping.

As encomendas podem ser feitas através de telefone (65) 98421-7584.

Se você tiver uma oportunidade de trabalho para Michaelle ou para o marido dela, Bertrand Jean, também basta ligar no telefone acima.

(Foto: Elloise Guedes/Única News)

Mika

 

Rede de apoio é falha

O site conversou com a Secretaria de Assistência Social do Estado e da Prefeitura de Cuiabá, que informaram que no momento não há uma solução para os imigrantes que pretendem trazer familiares de outros países. Ainda é um problema sem muita saída, mas que tem entidades em Cuiabá que dão outros tipos de suporte.

A reportagem conversou com a coordenadora da Casa do Imigrante, uma entidade que ajuda e dá suporte a pessoas que vêm de outros países para Cuiabá. Segundo Eliana Aparecida Vitaliano, ainda não há este tipo de suporte na entidade. Eles ainda não conseguem trazer os familiares dos imigrantes para o Brasil, devido ao alto custo das passagens.

"É uma situação bastante complicada e muitos imigrantes passam por isso, aqui em Cuiabá. Muitos querem trazer os familiares e por enquanto a entidade não pode ajudar. Envolve muitos documentos além do custo ser bastante alto. A única alternativa, por enquanto e tentar particular", disse Eliana.

A instituição surgiu em 1980 e já acolheu mais de 2 mil pessoas. No início, a maioria eram brasileiras. Em 2012, os haitianos buscaram ajuda e mais de 5 mil foram atendidos. Já em 2018, a maior parte do acolhimento foi de venezuelanos.

A Casa do Migrante fica localizada na Avenida Gonçalo Antunes de Barros, no Bairro Carumbé, na capital. Os contatos para as doações são: (65) 3641-1451 e 3653- 1353, das 13h às 17h.


Comentários







Preencha o formulário e seja o primeiro a comentar esta notícia

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do site. Clique aqui para denunciar um comentário.


MATÉRIA(S) RELACIONADA(S)




VÍDEO PUBLICIDADE