Cuiabá, 18 de Fevereiro de 2020

CIDADES
Segunda-feira, 20 de Janeiro de 2020, 13h:58

SAÚDE MENTAL EM RISCO

Mortes de policiais por suicídio são maiores do que os assassinados em serviço

Ana Adélia Jácomo
Única News

(Foto: Reprodução/PMMT)

Dados divulgados no Anuário Brasileiro de Segurança Pública – 2019, desenvolvido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, demonstram que os casos de policiais vítimas de suicídio são maiores do que os assassinados em horário de trabalho.

A Polícia Militar de Mato Grosso, de acordo com a Diretoria de Saúde do órgão, registrou afastamento de 140 policiais militares de suas funções por ano por apresentar problemas de saúde mental, como estresse, ansiedade, depressão. 

O cenário alarmante não é algo aleatório, “muito pelo contrário, é o retrato de uma realidade perversa mantida por políticas públicas de segurança que tratam seus agentes principais como torniquetes de um sistema falido”, diz trecho do levantamento.

Em 2019, foram 104 suicídios, de um total de 256 vítimas policiais, tanto militares como civis. Dos quais 97% são homens; 51,7% negros. Os dados apontam que 75% dos policiais foram mortos fora de serviço. Os números indicam que a taxa de suicídio entre policias da ativa dobrou entre os anos de 2017 e 2018. Em Mato Grosso, um policial militar tirou a própria vida em 2017.

Já em 2018, foram dois PMs. Os números se repetem entre os policias civis da ativa nos mesmos anos. O Estado que mais registrou esse tipo de morte em 2018 foi São Paulo (20 casos), Minas Gerais ficou em segundo lugar com10 casos no mesmo período e o Paraná com oito casos. As mortes decorrentes de intervenções policiais demonstram que morrem 17 pessoas por dia. Ao todo, em 2018, foram 6.220 vítimas.

Ou seja, a cada 100 mortes violentas intencionais, 11 foram provocadas pelas polícias, dos quais 99,3% são homens. Nos dados gerais apontados no levantamento, Mato Grosso registrou nos anos de 2017 e 2018, 187 casos de suicídio e 207, respectivamente.

“A categoria Mortes Violentas Intencionais (MVI) corresponde à soma das vítimas de homicídio doloso, latrocínio, lesão corporal seguida de morte e mortes decorrentes de intervenções policiais em serviço e fora”.

Os dados apontam que crimes violentos letais e intencionais em Mato Grosso atingiram 17 policiais em 2017, e 2 em 2018. Esse número nacionalmente chega a 383 e 343, respectivamente nos anos citados.

MP cobra mais ações do Estado Em Mato Grosso, o Ministério Público Estadual (MPE) move ação judicial desde 2017 requerendo a condenação do Estado a instituir e manter programa de atendimento psicológico a integrantes das polícias Civis e Militares, Corpo de Bombeiros e peritos criminais.

A ação está conclusa para sentença e nesta semana, a 7ª Promotoria de Justiça Cível de Tutela Coletiva da Saúde anexou ao processo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2019, que conclui haver mais policiais vítimas de suicídio do que assassinados no horário de trabalho.

“Documentos que instruem o processo demonstram claramente que a rotina de trabalho dos policiais civis e militares, assim como dos bombeiros e dos peritos criminais os expõe, diuturnamente, à situações de pressão, medo, perigo de morte, entre outras”.

“Os riscos aos quais os referidos profissionais são submetidos, os abalos internalizados em decorrência da falta de atendimento psicológico preventivo e regular, foram amplamente demonstrados pelos depoimentos colhidos na fase pré processual e na fase instrutória”, diz o MP.

Reprodução

dados de suicídio de policiais

 

Serviços de prevenção

Em nota, a PM afirmou que “para prevenir as doenças mentais e os suicídios, realizou um ciclo de palestras nos 15 Comandos Regionais do Estado. Mais de 2.500 policiais participaram do projeto, que conta com palestras de psicólogos e avaliações psicológicas também”.

A PM tem hoje uma tropa de 7.145 policiais, ou seja, esses problemas atingem 5% da tropa.  Por ano, a instituição recebe em média de 393 atestados médicos relacionados a doença mental. Em 2018 foram registrados dois suicídios e em 2019 também, dois suicídios. 

Já o Corpo de Bombeiros Militar de Mato Grosso, oferece assistência social, psicológica e até espiritual aos profissionais. Sem especificar que tipo de aconselhamento religioso é oferecido, a corporação afirma que se preocupa com “a formação religiosa, moral e cívica no âmbito do CBM-MT”.

“O serviço é disponibilizado a todos os bombeiros militares e familiares. O setor realizou no ano de 2019, 2972 atendimentos, entre apoio funeral, assistencial, Fisioterapia, Psicologia e aconselhamento religioso, sendo 1.865 atendimentos de Psicologia para bombeiros militares e familiares em todas as unidades do Estado”.

“O serviço é disponibilizado a todos, sendo necessário o pedido do bombeiro militar para que os profissionais realizem o atendimento, no qual são feitos testes psicológicos de avaliação do nível de estresse, fontes estressoras, ansiedade e depressão e o acompanhamento completo sendo emitidos relatórios de resultados dos serviços prestados”, diz a nota.

A reportagem entrou em contato com a Polícia Judiciária Civil (PJC) para saber quais os tipos de suporte psicológico são oferecidos aos profissionais, no entanto, até a publicação deste material não havíamos recebido resposta. O espaço segue em aberto.

Peça ajuda. Sua vida tem muito valor

Cerca de 800 mil pessoas morrer por suicídio no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Os números revelam um problema de saúde pública. Procure ajuda profissional para lidar com o problema. Existe um serviço chamado Centro de Valorização da Vida (CVV) 198 (ligação gratuita) ou pelo chat disponível no portal www.cvv.org.br.

O município também oferece suporte no CAPS e Unidades Básicas de Saúde. É possível ainda acionar o serviço de emergência Samu – 192.


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