Cuiabá, 12 de Julho de 2020

CIDADES
Terça-feira, 30 de Junho de 2020, 18h:33

"SERVA DE DEUS"

‘Eu só pensava na minha vida’, conta jovem vítima de homofobia em rodoviária

Euziany Teodoro e Elloise Guedes
Única News

Arquivo pessoal

“Eu só pensava na minha vida. Se ela tinha alguma outra forma de me ferir”. Esse é o depoimento do jovem João Victor da Silva Pedroso, de 22 anos, ao Única News. Ele foi vítima de homofobia na rodoviária de Lucas do Rio Verde, no domingo (28), Dia do Orgulho LGBTQI+, por uma mulher que se dizia ser “serva de Deus” e acabou presa pelas ofensas.

“Toda hora eu pensava na minha vida, se ela poderia ter alguma arma, alguma faca, alguma coisa que pudesse me ferir mais ainda. Mas, graças a Deus, ela não tinha nada e ficou somente nos arranhões e nas ofensas”, relatou João Victor à reportagem.

João Victor trabalha em uma agência de viagens no local e foi vítima de agressões físicas e emocionais, que levará por toda a vida. “Eu vou passar pelo psicólogo. A própria empresa disponibilizou o psicólogo para conversar comigo, para ver se ficou algum trauma. Querendo ou não, ficou. Vamos tentar amenizar um pouco isso no meu psicológico”, contou o jovem.

Reprodução

Homofóbica Rodoviária de Lucas do Rio Verde

 

Tudo começou quando a mulher foi ao guichê de João Victor para comprar uma passagem ao norte do Estado. Ela foi orientada a obedecer ao limite interposto por uma corrente, a fim de evitar a proliferação da Covid-19. A partir daí, ficou agressiva.

“Eu pedi para ela, algumas vezes, ir para trás do lugar que ela podia ficar e ela falou para mim que ela não tinha coronavirus e que não tinha medo, porque ela era uma serva de Deus”, relatou João Victor.

A mulher chegou a dizer a ele que estava fazendo aquilo “por obra de Deus”, que a tinha enviado para fazer um extermínio.

“Ela perguntou sobre a minha sexualidade e eu confirmei a ela qual era. Aí ela se revoltou mais ainda, começou a me xingar, falar muitos palavrões, falou que eu ia morrer a todo momento. Falou que ela ia me matar, algumas vezes, e complementou que ela estava fazendo aquilo ali por conta da ‘obra de Deus’, que Deus tenha tocado no coração dela para ela começar esse extermínio contra os LGBT”, contou ele, emocionado.

Ninguém ajudou

João Victor não se sentiu ferido apenas pela mulher. Ele também conta que ninguém que estava em volta o ajudou. Mesmo ele tendo corrido pela rodoviária, pedindo ajuda, como se pode ver em vídeos pela internet.

"Eu fui pedindo ajuda, mas as pessoas simplesmente estavam filmando"

“Ela veio para cima de mim com essa haste de plástico e acertou no meu braço, nas minhas pernas. Quando o pessoal começou a gravar e eu vi que ela já estava mais alterada, foi quando eu saí correndo para ver se conseguia ajuda. Eu pedi ajuda enquanto ela tentava me acertar, me morder, me arranhar. Eu fui pedindo ajuda, mas as pessoas simplesmente estavam filmando. Não estavam nem aí para o caso e estavam apenas pensando na melhor maneira de filmar”, lamentou.

A mulher, cuja identidade não foi divulgada, acabou presa. Ela ainda disse que era prima de um ex-governador de Mato Grosso e, segundo João Victor, a todo momento o agredia e também aos policiais, afirmando que eles é que deviam estar na cadeia.

“Ela continuou me xingando muito, falando coisas sobre mim e sobre os policiais. Que quem deveria estar preso era eu e não ela, porque eu que sou a pessoa errada. Sempre usando o nome de Deus para tentar se defender, usando o nome de um ex-governador nosso. Toda hora insinuando que era prima dele e que nada daquilo ali ia resolver, que ela não ficaria presa”.

A mulher responderá pelos crimes de homofobia, ameaça, dano, injúria mediante preconceito, lesão corporal e tráfico de influência.


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