Cuiabá, 25 de Outubro de 2020

CIDADES
Quarta-feira, 23 de Setembro de 2020, 11h:24

INTOLERÂNCIA RELIGIOSA

Do Candomblé, funcionária é demitida após aparecer com cabeça raspada no trabalho

Da Redação
Única News

Reprodução

A prestadora de serviços gerais Regina Santana da Silva Fernandes, 41, foi vítima de intolerância religiosa, preconceito de raça e cor e constrangimento ilegal no local de trabalho após aparecer no local de serviço com a cabeça raspada.

A vítima trabalhava na empresa Morhena, que presta serviço terceirizado de limpeza para empresas em Cuiabá e em outros Estados. Ela estava na empresa desde junho de 2019, mas no começo deste mês sofreu uma situação de intolerância religiosa e preconceito por conta da sua raça e cor.

Após ter passado por um ritual de iniciação no Candomblé, no qual teve o cabeça raspada como é tradição na religião de Matriz Africana, Regina voltou a trabalhar no dia oito deste mês. Já com receio de sofrer algum tipo de descriminação ela chegou a usar seis tocas na cabeça para disfarçar que estava sem cabelo.

A raspagem do cabelo é um dos sinais que os iniciados do Candomblé apresentam ao ingressarem na religião e simboliza a consagração aos Orixás. O ato também é comum em religiões como o Budismo e em algumas ordens religiosas cristãs, com simbolismo parecido.

Constrangimento

Um dia depois que voltou a trabalhar, Regina foi ao banheiro, e sem perceber foi vista pela sua supervisora, que a viu sem toca e a questionou o porquê ela estava com a cabeça raspada. Ao indagar a funcionária, a responsável pelo setor chegou a perguntar se a colaboradora estava com câncer.

Regina respondeu que não estava doente, e em seguida, sua supervisora exclamou: "entendi" e, saiu do local indo direto para o escritório.

Depois do ocorrido, conforme é narrado em boletim de ocorrência registrado nesta terça-feira (22), na 1ª Delegacia de Polícia de Cuiabá, Regina foi chamada ao escritório no dia 17 deste mês, nove dias depois que tinha ocorrido a situação no banheiro.

Ao ser recebida no escritório da empresa – onde teve que esperar por 2h30 para ser atendida - Regina foi obrigada a tirar a toca da cabeça sob ordem da gerente. Com um olhar de reprovação a gerente disse que esse tipo de religião não cabia na empresa, pois além de ser "negra era macumbeira".

O constrangimento ainda continuou e a gerente afirmou que Regina tinha que "procurar Deus para se salvar" e ainda que pessoa da cor dela “e macumbeira não pode participar do quadro de funcionários da empresa”.

A gerente ainda intimidou Regina afirmando que nem adiantaria ela procurar pela Justiça, porque não daria em nada já que "a empresa possui vários processos e nunca perderam".

Regina foi obrigada ainda a assinar um aviso prévio que já estava com data de 11 de setembro, ou seja, seis dias antes da data que foi comunicada que seria demitida.

Estado emocional

Diante da situação constrangedora, Regina está com quadro emocional abalado, e passará por avaliação psiquiátrica para tratar de depressão.

Ela foi iniciada no Ilê Axé Egbé Osogbo Omo Orisá Osun, que significa Sociedade Espiritual dos filhos da Orixá Oxum, uma casa de Candomblé inaugurada há um ano em Várzea Grande.

A Iyalorixá Edna de Oxum, que é zeladora espiritual de Regina e presidente do Ilê Axé afirma que está indignada com a situação e, que a situação não será colocada no esquecimento.

"Estamos vivendo tempos difíceis de ataques às aos praticantes das religiões de Matriz Africana e de desrespeito ao nosso sagrado. Nós não vamos deixar essa situação impune. Já temos uma advogada cuidando do caso e queremos a reparação na Justiça de todas as ofensas e crimes praticados contra minha filha de santo".

Mãe Edna, como é conhecida a sacerdotisa, enfatiza que os adeptos das religiões Afro, como Candomblé e Umbanda, não podem se calar diante da situação de racismo religioso e preconceito, e que a denúncia às autoridades competentes e a busca pelo Poder Judiciário é fundamental para que esses casos não se transformem apenas em estatística.

"Eu fiquei sabendo dessa situação já alguns dias depois do ocorrido. E minha atitude quando soube não poderia ter sido diferente. Imediatamente busquei por uma advogada e registramos o BO para garantir que este caso não seja mais um, e sim, que a Justiça seja feita".


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