Cuiabá, 06 de Abril de 2020

ARTIGOS/UNICANEWS
Quinta-feira, 06 de Fevereiro de 2020, 10h:53

ONOFRE RIBEIRO

Linhas cruzadas

(Foto: Roger Perisson)

Os telefones antigos costumavam cruzar as linhas e conversas indevidas caíam em ouvidos indevidos. Confusões indevidas. Se isso não acontece mais, nos mundos que transitam pelas redes as relações se azedam rapidamente.           

Vamos ao assunto. Nas últimas semanas as conversas entre o Governo de Mato Grosso e as entidades representativas dos setores da economia. A briga não é diretamente com o comércio, com os serviços, com a agropecuária ou com a indústria. É com as federações, associações e sindicatos classistas dos setores econômicos do comércio, da indústria e do álcool.           

Até o fim do regime dos militares, em 1985, as entidades civis não tinham voz junto aos governos. Mas depois de 1988, a Constituição deu-lhes voz. Em alguns momentos elas souberam aproveitar corretamente. Mas na maioria tornaram-se vendedoras de apoio em troca de benefícios do Estado. No período dos governos petistas isso piorou muito. Foram literalmente compradas, assim como foram comprados os poderes Legislativo e Judiciário. Sem falar nas universidades públicas  e na maioria significativa da mídia. E até mesmo os partidos políticos sem exceção. Trocando em miúdos: nessas duas últimas décadas o espírito crítico nacional foi comprado por favores governamentais, por incentivos fiscais e isenções de impostos. Fora cargos políticos onde circula muito dinheiro.           

Vamos ao caso atual de Mato Grosso. O voto perde representatividade gradualmente na medida em que os eleitos parlamentares não representam ninguém além de si mesmos. Assim, o voto não lhes dá o direito de falarem francamente a favor de ninguém. Falta-lhes a credibilidade.           

O governador Mauro Mendes enfrentou em 2019 as federações e associações e sindicatos ligados ao agronegócio, ao comércio, ao etanol e à indústria. Não teve resistências articuladas. Acabou em bate-boca na imprensa. Tem culpas dos dois lados. O governo que conversa pouco e impõe muito. Os setores econômicos que não articulam uma voz em comum e nem tem uma leitura política estratégica. Batem boca com burocratas públicos. Gente perigosíssima! Sem estratégia, a economia é engolida facilmente.           

Engano pensar que notas publicadas na mídia comovem os burocratas. Eles só enxergam a porta de entrada do caixa do governo. O mundo real pra eles não existe.           

A leitura final é muito ruim pra sociedade que precisa da voz dos setores organizados. O seu silêncio deixa órfãos importante setores da economia e não dão ao governo a leitura crítica que ele precisa pra se posicionar corretamente. Perdem os setores, o governo e os cidadãos. Essa orfandade não interessa a ninguém.           

Pra continuar conversando ou brigando com o governo, necessárias atitudes estratégicas fora das páginas da mídia. Amadurecimento político somado à competência produtiva comprovada farão das relações economia e governo uma ponte confiável.


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