Cuiabá, 16 de Outubro de 2019

VARIEDADES
Terça-feira, 21 de Maio de 2019, 13h:39

ÓTIMA FASE

Xuxa celebra 40 anos de carreira com livro

Rosana Rodini
Vogue

(Foto: Blad Meneghel)

"Minha voz não é mais a mesma, a minha pele não é mais a mesma e meu corpo não é mais o mesmo. Conheço meu rosto, sei da minha idade e estou muito bem com o que eu vejo. As pessoas precisam me aceitar como eu sou e quero ser. Tem gente que gostaria de me colocar de chuquinha, falando fino, descendo de uma nave, embalsamada em um lugar imaginário de 20 anos atrás. Mas você acha mesmo que a essa altura eu vou ligar para a opinião dos outros? A imagem é minha e eu faço dela o que eu quiser.” Faz mesmo. Sentada em frente a um espelho enorme, no estúdio profissional que tem em sua casa, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, Xuxa propõe: “O cabelo já cresceu, vamos raspar antes das fotos?”. O barulho da máquina, lâmina quatro, dá o tom da cena, que é bonita de se ver. “Ficar careca era uma vontade antiga que só aconteceu agora.” Aos 56 anos de idade, com 40 de carreira, Xuxa não perde mais tempo com o que não importa. “Estou pronta, vamos começar?”.

Passa de uma da tarde, horário que, segundo a sua assessora e ex-paquita, Tatiana Maranhão, Xuxa normalmente começa seus compromissos profissionais. “Pensei em fotografar lá em cima”, sugere, ao passar pela sala de pé-direito altíssimo, com um jardim interno onde pássaros vivem livres e o cantor Junno Andrade dedilha um piano de cauda branco. O namorado ganha um afago. A cachorra Dana é a próxima. Xuxa é dada a carinhos explícitos com os seus. E os seus são poucos. “Gosto mesmo é de bicho e de criança.” A recíproca sempre foi verdadeira. “Acho que elas sempre me curtiram porque eu nunca as tratei de forma infantilizada, era de igual para igual. Criança não gosta de tatibitate, mas os adultos não achavam aquilo normal. E às vezes não era (risos). Uma vez, um menino de botinha ortopédica pisou no meu pé de propósito. Eu pisei de volta”, diverte-se. Para além do título de Rainha dos Baixinhos, passagens como essa, reproduzidas em vídeos na internet, somadas às suas opiniões e posicionamentos, a transformaram em espécie de ícone cult moderno. “Acho engraçado, parece que agora estou na moda outra vez, quando, na verdade, sigo falando e fazendo o que falo e faço desde sempre. Eu não me reinventei. Na verdade, as pessoas é que me redescobriram.” Faz sentido. Algumas das bandeiras da apresentadora, como a do veganismo e, da liberdade de escolha, são tão essenciais quanto atuais. “Não como carne vermelha desde os 13 anos por dois motivos: me faz mal e eu gosto demais dos bichos. Mas demorei um pouco mais a me tornar vegana porque eu achava que a proteína só poderia vir do animal. Falta de informação. E a indústria agropecuária é das mais nocivas. Por isso eu falo tanto, mesmo sem ter completa noção de quantas pessoas impacto com meu discurso.”

Xuxa sabe o que está dizendo: nos mais de 30 anos de televisão, moveu uma geração de crianças cantando sobre sonhos e a possibilidade de realizá-los. Em 2012, ao falar publicamente sobre os abusos sexuais que sofreu, colocou a violência infantil em necessária pauta. Só no Instagram, são quase 10 milhões de seguidores com quem ela conversa (e debate) diariamente. “Gosto da troca. Mas, quando posto uma foto e julgam as minhas rugas, eu rebato. Estou velha para aguentar falta de educação. Não sou contra plástica ou botox, só não quero fazer porque me sinto bem assim. Mas, se você quer puxar o olho ou deformar a bochecha, tudo bem também. As pessoas precisam entender que cada um pode e deve fazer o que quiser.” Parece óbvio, mas não é.

Mas esse óbvio não é um adjetivo que se encaixe em sua vida. Apresentadora, cantora, empresária, filantropa e modelo, tem uma biografia digna de roteiro cinematográfico. “O Junno sempre fala que eu deveria escrever uma série sobre a minha história, mas ninguém iria acreditar. Eu sempre consegui tudo o que eu quis. Quando era criança, lá em Santa Rosa, no Rio Grande do Sul, eu disse: ‘vou cantar no Chacrinha’. E o Cassino do Chacrinha foi o primeiro lugar onde me apresentei. Na primeira vez que em que fui à Zona Sul, no Rio, eu disse: ‘vou morar aqui’. Todo mundo riu, mas o primeiro apartamento que comprei foi bem ali, com vista para o Cristo e a Lagoa. Pelé, o maior ídolo do País, foi meu namorado por seis anos. O outro ídolo, Ayrton Senna, foi uma história de amor”, elenca. “Fora as coisas malucas que me aconteceram pelo caminho, como quando fui a Neverland a convite de Michael Jackson, que eu sonhava em conhecer, e saí de lá com a proposta de gerar os filhos dele.” Não aceitou: já tinha sonhado com uma menina linda, do signo de Leão. “E a Sasha veio igualzinha. Deus foi muito generoso comigo.”

“Eu sei que nunca vou conseguir retribuir o que ganhei. Mas ajudar os outros é também uma forma de me sentir menos em dívida.” Por 28 anos, foi a mantenedora da instituição filantrópica Fundação Xuxa Meneghel. Em 2014, tornou-se uma das principais defensoras da Lei Menino Bernardo, apelidada de Lei da Palmada, que visa proibir o uso de castigos físicos e tratamentos cruéis ou degradantes na educação de crianças e adolescentes. “Violência gera violência. E a gente já vive num país tão violento. Eu luto muito pelas causas que acredito.” Feminismo?“Eu nunca falei muito sobre isso, mas sei que fui exemplo para muita menina ao mostrar que uma mulher poderia estar num lugar de destaque.”

“Tenho vontade de fazer muita coisa ainda. Não quero e não vou viver do passado”, diz. Parte dele, entretanto, pode ser revisitado no recém-lançado livro Xuxa – Edição Limitada para Colecionador, com fotos lindas e inéditas selecionadas pelo curador Gringo Cardia. “Nunca me achei bonita, mas sei que sou uma soma de vários fatores: fotogenia, fotografia, figurino, cenografia. E uma luz própria para saber trabalhar tudo isso direito.” E ela sabe. Quando começa o ensaio, Xuxa domina o set. Conhece seu melhor ângulo, arrisca todos os movimentos, se entrega e acerta. Experiência para isso ela tem de sobra. Só no primeiro ano de carreira, foram mais de 80 capas de revistas. “Queria ser veterinária.” Foi descoberta ao acaso, em um trem. Aceitou o convite para modelar e gostou. A chamada para apresentar um programa infantil também foi por ventura do destino. Ironicamente, estava com a sua Playboy embaixo do braço. Ao aceitar, tornou-se a maior apresentadora infantil do País. É que trabalhar é um dos seus verbos favoritos.

Hoje, além de apresentar o reality show musical The Four Brasil, no segundo semestre volta com o Dancing Brasil, também na Record. Há ainda o Geração Xuxa, programa digital que marca o seu reencontro com as crianças. Da faceta empresária, é sócia de uma rede de casas de festas e bufê infantil (a maior da América Latina) e de uma franquia especializada em tratamento de depilação a laser, com mais de 430 clínicas em operação no Brasil. “Trabalhar é o que me move, mas não penso em fazer isso para sempre, não dessa forma. Daqui a um ano e meio, quando a Sasha acabar a faculdade de moda, em Nova York, vou entender para onde a vida dela vai. E repensar a minha”, adianta. “Só quando a Sasha nasceu foi que senti a necessidade de tomar as rédeas da minha carreira. Na verdade, acho que quis me tornar uma pessoa melhor. Quando me perguntam por que não escrevi um livro tendo tanta história para contar, eu sei a resposta. É que o capítulo mais bonito ainda está por vir. Quero mesmo é ser avó.”

 


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