Cuiabá, 19 de Dezembro de 2018

Elen Lisboa e Maher Hassan Musleh

Segunda-feira, 21 de Maio de 2018, 11h:12 - IMPRIMIR | comentar (01)
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O suicídio e a supressão da individualidade


 

De tempos em tempos, o suicídio se torna tema de debate na mídia e nos almoços de família. Seja pelo caso de um famoso, seja pelo caso de um anônimo, o assunto costuma gerar comoção e, em muitos casos, preocupação por parte das famílias – em especial entre os pais de jovens e adolescentes. 
 
Independentemente de estar ou não em evidência, dados mostram que o suicídio é uma realidade preocupante no país. Entre 2000 e 2015, as taxas aumentaram 65% entre pessoas com idade de 10 a 14 anos e 45% de 15 a 19 anos – enquanto, considerando todas as faixas etárias, a alta foi de 40%. No mundo todo, segundo a OMS, aproximadamente 800 mil pessoas tiram a própria vida todos os anos, sendo o suicídio a segunda principal causa de mortes entre pessoas de 15 a 29 anos.
 
Frente a estes números, ou aos casos que acontecem próximos a nós, a pergunta que se faz, tanto por parte da mídia, como dos país e educadores, é quase sempre a mesma: O que leva o jovem a cometer suicídio?
 
A própria formulação da pergunta já apresenta um erro importante. A ausência da perspectiva de que vários fatores e agentes contribuem para o ato extremo de dar fim à própria vida. E aí os olhares simplistas brotam: o motivo foi o termino do namoro, o fracasso no trabalho, o divórcio dos pais, etc. 
 
É preciso que ampliemos o nosso olhar – tanto como indivíduos quanto como parte de uma sociedade para enfrentar a temática. A palavra respeito é fundamental quando se trata de pensar o suicídio. Onde há suicídio não está havendo respeito em alguma medida e ou aspectos, embora essa ausência não tenha necessariamente relação com pessoas no entorno de quem se suicida, mas sim com o todo: somos todos corresponsáveis. Não o pai, nem a mãe e nem o professor, mas, sim, todos como sociedade e como um modelo de educação familiar e social que não dá lugar àquele ser, àquela alma e ao seu propósito e contribuição específicos.
 
É preciso entender que o verdadeiro sabor da vida é ocupar o lugar que nos pertence nela; consiste em nos sentirmos acolhidos tais quais somos e em respeitarmos e termos respeitadas nossas necessidades, nossa natureza e nosso movimento individual – o que nada tem a ver com padrões de sucesso, êxito, prosperidade ou de anseios e expectativas da família, dos amigos e da sociedade.
 
Antes de tudo, é preciso pensar sobre a forma como estamos vivendo. Na ânsia de educar nossos filhos e dar a eles uma melhor qualidade de vida, acabamos por criar uma pressão que nem mesmo é racional. Cobramos, desde cedo, que eles sejam o número um, que estudem muito, que saibam de tudo e que se qualifiquem para a melhor universidade. Vivemos e promovemos a ideia de que um estudo desenfreado, uma busca por dinheiro e uma urgência por um objetivo na vida são as únicas chaves para o sucesso.
 
Com a cobrança pelo seguimento de padrões e tradições rígidos, passa-se a ideia de que existem poucos e exclusivos caminhos para o êxito, como se não pudesse haver sucesso e felicidade em um caminho novo e que poderia ser criado por essa pessoa. O resultado disso, mais do que uma criança ou um jovem estressado desde cedo, pode ser um indivíduo que se vê desprovido do direito à sua individualidade e de um lugar onde se encaixe. 
 
Se há uma ditadura de que todos têm que ser bem-sucedidos de acordo com um molde, aqueles que têm natureza mais tranquila, que poderiam se desenvolver sem pressa enquanto descobrem potencialidades e vocações, não têm o seu espaço. E, a partir do momento em que um ser fica completamente fora da natureza dele, a tendência é que ele perca os sentidos – desencadeando casos de depressão, ansiedade e desânimo. Por fim, há casos em que a ausência de um sentido para a vida é tamanha que o suicídio parece a única saída.
 
Precisamos olhar, também, para a história e as marcas de cada um – remetendo, por exemplo, à constelação familiar. Onde há um movimento para a morte e para o suicídio, pode haver um registro biológico ou familiar anterior: uma morte precoce, uma exclusão familiar, um acidente, um assassinato ou outras perdas que, mesmo ancestralmente, possam gerar no indivíduo uma marca que gere a sensação de que a morte é a solução.
 
Mudar esse cenário, portanto, depende de todos. E, embora não tenhamos controle sobre o todo, podemos sempre ter um papel na vida daqueles que estão ao nosso redor. Podemos e devemos sempre respeitar a natureza, a individualidade, a contribuição pessoal e o talento de cada um, valorizando a riqueza da diversidade que temos nessa grande matriz que é o planeta.
 
* Elen Lisboa Rodrigues Bellandi é terapeuta e consteladora familiar com formação pelo Instituto Brasileiro de Soluções Sistêmicas (IBSS), liderado pela psiquiatra Dagmar Ramos. É coach pela Erickson College e pela Integrated Coaching Institute (ICI), ambas credenciadas pela International Coaching Federation (ICF), e possui formação em Coaching Express pela Condor Blanco, credenciada a Associação Internacional de Coaches Profissionais. 
 
* Maher Hassan Musleh é Psicólogo clínico, mestre em Psicologia Social, psicodramatista, com formação em Terapia de Casal, membro do grupo de estudos sobre prevenção de violência para a paz, agente do programa “Gente que faz Paz”, professor do curso Capacitação de Profissionais para Trabalhar com Violência Doméstica (GEV/APTF) e professor e supervisor do curso de Terapia Familiar (ESOFS/APTF).
 

www.lisboadesenvolvimento.com.br.

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